Nas últimas semanas o tema da solidão se tornou cada vez mais presente na clínica. Alguns clientes pautaram o assunto nos atendimentos e, de todas as diferenças, contextos e sentimentos relacionados que tanto diferiam, o medo era um ponto central. Medo das expectativas não se cumprirem, medo do “dar errado”, medo da hipótese, medo paralisante, que não permite o movimento, o pensar para a frente ou para trás, medo que exclui o social, o individual, exclui o próprio medo as vezes, e esse conjunto leva à raiva, à frustração, ao medo do próprio medo, como um mecanismo que se auto alimenta na base do sofrimento.

E entre todos os relatos, as experiências e revivências, vi um meio comum, um contexto múltiplo, mas também único em suas particularidades. O período pandêmico provocou medo, que foi em alguma medida superado, mas o isolamento foi algo novo, longo e perturbador em alguns casos. Não estávamos acostumados com a ideia de não sair de casa, não socializar, não frequentar mais os espaços, e assim fizemos por meses e meses, sem conseguir olhar para o amanhã, que era tal como o ontem, o hoje, distinto, porém igual. E num momento de retorno à vida de sair de casa, trabalhar em escritórios, ir para bares, parques, cinemas, baladas, faculdade, encontros, motéis e o que mais for, muitos não o fizeram. Não o fizeram por terem uma preocupação maior com a própria saúde, e de alguns outros, porque ficaram no trabalho remoto, evitaram bares, parques, cinemas, baladas, motéis, alguns se formaram nas faculdades, outros entraram em uma pela primeira vez, os encontros se espaçaram, mas a socialização ficou mais difícil, truncada, quase sem jeito no face a face, sem uma tela, sem poder desligar a câmera, estando de fato vestido e arrumado, e não com as calças do pijama e uma produção minimamente digna na parte superior do corpo.

A falta de socialização não é um problema em si, mas as pressões pessoais, sociais, de trabalho e estudo, entre outros, para o retorno à convivência, sendo que nunca antes tínhamos vivido tal experiência, deixaram suas marcas. Uma delas é o medo, outra a ansiedade, mas uma que tem feito parte dos meus diálogos recentes é a solidão. A solidão dentro da própria casa, nas saídas cotidianas, um sentimento de abandono de si mesmo, como se tudo fosse mais difícil, como se cada passo fosse o primeiro, uma pressão constante, mas não forte, insistente, mas não vista como incômoda, até o momento em que ela aparece como uma onda, varrendo todos os sentimentos consigo, deixando um grande vazio, uma estepe de vazios, de incerteza, de tudo aquilo que evitamos, mas de que não conseguimos fugir.

Dentro da clínica fenomenológica, trabalhar a questão da solidão é um esforço contínuo que envolve a tentativa de olhar para um horizonte de possibilidades e buscar enxergá-las como tal, a tentativa de identificar quais delas são projeções das ansiedades sentidas, e o que fazer a partir daí. É uma sequência de passos tortuosos que vem e vão pelos atendimentos, pelo cotidiano e principalmente pelos momentos onde a solidão se faz mais presente, momentos estes que permitem uma intervenção direta, uma tentativa de desvelar o que se oculta pelo medo, pela raiva, pela tristeza e por todas as outras emoções que mascaram a realidade do sofrimento que reside embaixo disso tudo, se alimentando delas e produzindo-as após uma digestão rudimentar.

O caminhar de cada pessoa dentro do próprio processo terapêutico é uma mar de possibilidades, mas os atendimentos tem gerado reflexões voltadas para o autocuidado e a percepção de algumas limitações, tanto nas possibilidades de intervenção quanto na capacidade de diferenciar o que é consequência e o que é correlação, um passo importante para quebrar o mecanismo de auto alimentação da solidão, que se consolida quase sempre por outra emoção, ou até por um sintoma físico, comumente ligado à ansiedade. Um passo importante nesse caminhar ocorre fora dos atendimentos, no cotidiano de se observar, tentar se compreender e apontar com a maior clareza possível o que estiver ao alcance do olhar, da emoção e do pensar, por mínimo que pareça no primeiro momento. É através das tentativas de compreensão que a lida diária contra as sensações paralisantes começa, e os atendimentos psicoterapêuticos tem a função de orientar possíveis passos e permitir a reflexão livre, o contato de si com um outro em um contexto de confiança e uma busca comum pelos objetivos acordados no início do processo terapêutico.

A solidão não deve sumir da noite para o dia, inclusive seria estranho se isso acontecesse, mas é ressignificada, modelada e superada com o tempo, com esforço e, principalmente, com apoio. As próximas semanas devem ser ainda movimentadas em torno deste tema, e aposto que muito ainda há a ser descoberto dentro de cada atendimento, como continuidade dos processos individuais.

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