É razoavelmente comum lermos ou ouvirmos falar frases como “a terapia tá em dia?”, “pelo menos a terapia tá em dia”, e similares, seja em grupos de amigos ou redes sociais. Mas afinal, qual é a ideia da terapia em dia?

Primeiro, de que terapia estamos falando?

Por “terapia” aqui, estou me restringindo à psicoterapia, e como tal, um processo ativo de reflexão sobre a própria vida, questões, dilemas e dificuldades, mas também conquistas, mudanças e planos.

Segundo, das burocracias

Pagar os profissionais em dia, comparecer nas sessões marcadas, ou comunicar atrasos e faltas com antecedência, sempre que possível, podem ser vistos como padrões esperados dentro de um processo clínico, mas isso não nos diz nada sobre o processo em si. Estar quite com as obrigações como cliente não significa que uma pessoa esteja de fato aproveitando os potenciais da terapia, que ela esteja utilizando não somente o tempo dos atendimentos, mas dedicando-se ao longo da semana para refletir sobre os temas ali comentados e parcialmente elaborados. O processo terapêutico não se faz somente durante as sessões. Inclusive, a maior parte dele se dá fora delas, no cotidiano, quando cada cliente conseguirá discernir o que faz, e o que não faz, sentido de tudo o que é discutido semanalmente naquela hora marcada.

Terceiro, das expectativas

Não é, ou não deveria ser, novidade que nenhuma terapia é milagrosa. Os atendimentos não são feitos por um profissional para um cliente, o processo clínico é feito em conjunto, onde as duas partes dialogam por um sentido em comum, orientado pelo cliente e mediado por um profissional. O tempo é um fator essencial para a psicoterapia, seja por seus aspectos limitantes, seja por seu potencial. Estar “em dia” com a terapia é estar em dia com o respeito ao próprio tempo, em certa medida.

E por último, a ideia do “em dia” faz sentido?

Então, pensando assim, a ideia de estar em dia com esse processo é algo que não faz muito sentido, já que o próprio processo clínico obedece ao tempo de cada um para processar e compreender suas questões, e também de planejar e tomar atitudes que façam sentido dentro das ideias elaboradas com um profissional. Cada processo terapêutico é único, e as responsabilidades de cada cliente são mais consigo mesmo do que com o profissional que o atende.