Despedidas são difíceis, muito difíceis, por vários motivos. Despedir-se é abraçar a finitude de algo, é lidar abertamente com o luto, com a imensidão de possibilidades do depois, sem certeza alguma do que está sendo deixado para trás. Quando planejadas, pensadas com antecedência, o processo de falar é uma luta contra a ideia de manter tudo o que se construiu, conquistou e de manter a própria história intacta, sem um final. Em geral as despedidas não são assim, a última vez que você falou ou saiu com alguém, que visitou algum lugar, a última briga, o virar as costas, a fuga do pensar, do falar, nada disso é planejado, e essas são as coisas mais difíceis em uma despedida, porque vem sem preparo, sem reflexão, e a percepção da dor é imediata, mas posterior ao último momento.
Em materiais de psicologia é muito comum encontrarmos referências ao luto com relação à morte, mas o luto é a perda de algo significativo. Para Bowlby, quanto maior a importância do vínculo com o que foi perdido, maior a intensidade do luto sentido. Esta afirmação pode ser questionada em amplos sentidos, teóricos e práticos, mas para este texto vamos permanecer com a ideia de que a intensidade do luto está atrelada ao sentimento de perda.
Nos atendimentos psicoterapêuticos, é comum o luto ser trabalhado na perspectiva da culpa, na compreensão dos processos de perda, de conquista do que é novo e da aceitação da finitude. Menos comum, mas ainda relevante, é o trabalho na perspectiva da ressignificação da despedida em si, da incerteza sobre o futuro e da importância do olhar para as minúcias neste momento de sofrimento. A pontada de ciúmes despertada em uma madrugada insone, a dificuldade de falar sobre o que aconteceu para pessoas próximas, a angustiante falta de honestidade sobre a despedida, seja esta planejada ou não, o medo do domingo de manhã, quando o peso de tudo o que aconteceu martelará os olhos fechados ao primeiro instante desperto. Estes e tantos outros elementos são o que despertam o potencial de cuidado em nós mesmos, com o tempo, com cuidado externo e, principalmente, com a possibilidade de sentir o que precisar ser sentido, ainda que a dor pareça insuportável.
Despedidas são difíceis, mas necessárias. Um evento muito comum é as pessoas evitarem as despedidas, virarem as costas e tentarem lidar sozinhas com o próprio luto, sem olhar para o luto do outro, sem considerar que aquele lugar não tem significados somente para você, mas é partilhado e sentido por todos que passam ali, com maior ou menor frequência. Despedidas são necessárias porque fazem parte do ciclo de finitude da existência, e são difíceis porque lidar com isso nunca nos foi ensinado. A clínica psicológica pode ser o lugar do aprendizado, mas este em geral vem do sofrimento, e não de uma compreensão maior do despedir-se, o que é de extrema importância para que os mesmos erros não sejam cometidos, as mesmas dificuldades não sejam repetidas das mesmas formas. O aprendizado é constante, e dele dificilmente nos despedimos.
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