Bondage. Domination. Sadism. Masoquism.

Quatro palavras, infinitas expressões, e muito moralismo. Resolvi escrever esse texto após alguns anos atendendo pessoas que trazem conteúdos, dúvidas, questões práticas, e discussões sobre BDSM para a clínica. Mas antes de tudo, é importante ressaltar que o moralismo não tem lugar dentro da clínica. Ali, nos atendimentos, sejam estes virtuais ou presenciais, não existe espaço para fechamentos, e é essencial que nos abramos para ideias fora do que é dito comum, normal, padronizado e normatizado. Não deve ser surpresa pra quem ler este texto que trabalho sob e sobre lógicas de-, anti- e contra coloniais, e aqui leia-se aquilo que é normativo, cis-hétero, branco, opressor, imperialista, cristão, casto, “de bem”, e derivados. Caso seja uma surpresa, espero que deixe de ser ao longo dos parágrafos. E não que eu não atenda pessoas que se identifiquem ou possuam os marcadores listados acima, mas em momento algum vou defendê-los ou exaltá-los em minha prática profissional.

Dito isto, vamos conceituar o BDSM. A sigla, em inglês, pode ser traduzida por Submissão, Dominação, Sadismo e Masoquismo. Na prática, simboliza e abarca um conjunto de práticas com teor sexual, mas não exclusivamente, de caráter não normativo, ainda que amplamente praticadas por pessoas que até desconhecem o termo. Os preceitos básicos do BDSM são o respeito aos limites e as descobertas individuais, então as consideradas boas práticas envolvem diálogo franco e direto antes de qualquer ação, com o intuito de estipular os tais limites, assim como medidas de segurança. Por ser um conjunto de práticas extenso e variado, não irei me debruçar muito nestes aspectos, porém é interessante indicar que aos praticantes de BDSM é recomendado os conhecimentos básicos de primeiros socorros, pontos de pressão, zonas erógenas e, principalmente, respeito e bom senso. Partindo pra clínica, as experiências ali discutidas são inicialmente difíceis de serem verbalizadas, geralmente por vergonha, mas também pelo medo do julgamento, pela condenação social do que é certo ou errado, do “sexo sujo”, que remete à estigmatização de IST’s e práticas ditas não convencionais, do que é considerado errado. Ultrapassar essa barreira pode ser bem difícil, mas uma vez que este salto foi dado, há muita possibilidade para repensarmos as concepções que temos de sexualidade, de sentimentos ditos positivos, como o amor e o tesão, e ditos negativos, como o medo e a aversão. BDSM (também) é sexo, e sexo é algo natural.

Faço mais uma pausa aqui pra falar do sexo como algo natural. Isso não significa que pessoas que não gostam ou preferem não praticar sexo, por quaisquer motivos, sejam erradas de alguma forma. Também não significa penetração, há diversas formas de se praticar sexo, e penetração é apenas uma delas. Vejo ainda a necessidade de reafirmar que sexo não é algo sujo, mesmo que envolva saliva, sangue, urina, fezes, e outras substâncias e fluidos ditos não convencionais. Pessoas que convivem com IST’s podem transar normalmente, de forma saudável, sem riscos para si ou parceires, ainda que seja recomendado o acompanhamento médico e testagens frequentes para a garantia de saúde, o que deveria ser padrão para todes, independentemente de histórico clínico. Assim, sexo é natural, e não é uma coisa só, mas um mar de possibilidades.

Terminado o hiato, falemos de BDSM e suas possibilidades. Não foi uma ou duas vezes em que falar sobre BDSM em atendimentos proporcionou discussões sobre saúde (física, emocional e sexual), prazer, autoconhecimento, reconhecimento de limites, dificuldades de comunicação (não somente sobre temas sexuais) e até reflexões sobre culturas, moral, senso de comunidade e redes de apoio. Assim como utilizo as não monogamias como estratégia clínica, a abordagem da sexualidade via BDSM, onde clientes apresentam ou sugerem o tema, tem sido uma via de acesso e comunicação bem mais profunda do que a princípio parece ser. O uso de plataformas virtuais (aplicativos de relacionamento ou de comunidades fetichistas, grupos em aplicativos de comunicação, blogs e vídeos em geral) é uma forma de apresentação muito comum da temática, ainda que venha carregada de uma série de problemas reais e de difícil modificação. “O meio” do BDSM é tradicionalmente branco e fortemente machista, o que não tem necessariamente relação direta com as ideias de dominação e submissão, e é nessa esfera que muitas violências estruturais (leia-se machismo, racismo e LGBTfobia, principalmente) ganham uma dimensão sexual, predatória, e em alguns casos de caráter persecutório e/ou financeiro. Pra quem é praticante ou pesquisadore, não é difícil identificar personas com anos de histórico de abuso, que tem acesso restrito em variados ambientes e festas, mas que permanecem afetando as vidas de quem não tem apoio ou experiência para evitar cair em ciladas.

Como já mencionei, o respeito aos limites e a atenção às medidas de segurança são pontos essenciais de uma prática segura do BDSM, que, caso sejam ignoradas, podem causar danos extensos e irreversíveis (e mesmo estes são válidos, desde que haja consentimento prévio). Por isso, conversas abertas, dentro de um ambiente seguro, como o espaço terapêutico, são importantíssimas para a apropriação das experiências, dos pontos positivos e negativos, dos limites e, também, dos aprendizados com os erros. Não cabe à psicologia o papel de julgar qualquer prática afetiva, sexual e/ou romântica, e é essencial ressaltar isto aqui, o papel da moralidade na psicologia é o da auto compreensão, ou o da análise contextual, que passa por questões culturais e religiosas, e nunca como definidor, normatizador ou orientador.

Em minha trajetória clínica, já vi o BDSM tendo parte na compreensão diagnóstica, em processos de socialização, na redescoberta de prazeres e no incremento de autoestima, assim como já vi e acompanhei relatos de abuso e violências diversas, da formulação de novos medos e da introspecção. Assim como quase qualquer coisa na vida, o BDSM tem aspectos muito interessantes e muito perigosos, mas a permissividade do espaço clínico para a compreensão de si por esse viés abre uma torrente de possibilidades, o que sempre buscarei nos atendimentos, nas supervisões e, porque não, nos espaços acadêmicos.

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