Adolescência é uma minissérie da Netflix, com quatro episódios, que viralizou rapidamente por dois principais motivos: o uso de plano-sequência ao longo da maior parte das cenas, e a temática de um assassinato supostamente cometido por um adolescente, contra uma colega de turma. Aviso: a partir daqui haverão spoilers.
Esse texto é uma crítica à série, então preciso começar falando que: é ruim, ponto. O que a princípio parece ser algo interessante, a discussão dos efeitos do bullying e de uma cultura incel/redpill na personalidade e maturidade de meninos jovens é, de fato, super importante, mas a série não aborda isso. A discussão sobre os efeitos psicológicos de uma cultura misógina que coloca pessoas femininas num lugar de subserviência e menor poder é necessária, mas a série também não fala sobre isso. Informações sobre violências de gênero, como costumam acontecer, como é possível evitar, e como denunciá-las deveriam estar em todos os episódios, mas adivinhe? Exatamente, não tem nada disso na série. Mas sobre o que ela fala?
Cada episódio conta um momento diferente da vida da personagem principal, um garoto de treze anos que matou uma colega de turma a facadas, num estacionamento vazio, numa noite qualquer. A narrativa não traz esclarecimentos sobre como ele se sente, o que motivou o crime, ou qualquer tipo de elaboração sobre o que envolve o homicídio, mas graficamente mostra a postura do jovem, e ao longo dos outros episódios, de seu pai, sobre ações claramente machistas e violentas que muitas vezes são consideradas normais, mas o pior, que a série normaliza ao não pontuar suas especificidades nos contextos em que ocorrem. Vi algumas críticas que apontam que não é uma série explícita, que "provoca quem assiste a pensar e tirar as próprias conclusões", que "comunica pelas entrelinhas", mas também com uma que concordo: que é falha em dialogar com o público, dado que não inicia, propõe, ou apoia uma discussão sobre o principal problema retratado na série: uma sociedade que finge não se importar.
As personagens femininas retratadas ao longo dos quatro episódios, a mãe e a irmã do assassino, uma sargento policial, e uma psicóloga que faz o acompanhamento do jovem enquanto interno do sistema judicial, não tem profundidade, não são exploradas e suas relações emocionais ficam muito abaixo do segundo plano, quem dirá do primeiro. Logo no primeiro episódio há uma cena na delegacia, em que a mãe aparece desolada, com o filho preso por um crime não mencionado para eles de forma clara, sem informações sobre o que deve acontecer, pergunta sobre os danos causados ao domicílio da família, e a narrativa segue o pai, a personalidade masculina que vai proteger o adolescente e guiá-lo nos exemplos que serviu ao longo da vida e criação do jovem. No terceiro episódio, o que mais mostra uma personagem feminina emocionalmente investida de alguma forma, a psicóloga segue à risca o manual do que não fazer num caso de atendimento a uma vítima de violência ou à um menor de idade que tenha participado de algum ato violento. Todas as intervenções retratadas provocam revitimização sem um objetivo claro de esclarecimento de qualquer questão, e as respostas violentas provocam efeitos emocionais em ambas as partes, quase que ignorados pela estrutura narrativa. As cenas não indicam nada do que a personagem sente ou pensa, quase colocando sobre sua postura a culpa de um crime ocorrido meses antes.
Aqui é importante lembrar que toda a série é produzida, financiada, roteirizada, e dirigida por homens. O fato de um dos produtores ser Brad Pitt, acusado de agredir os próprios filhos e a ex-esposa, não passa despercebido, e é um ponto que faz parte da discussão quando falamos da Netflix e de suas fórmulas. A série gera engajamento e dinheiro, sem trazer nada de novo ou útil para possíveis vítimas e pessoas interessadas na temática, é uma massagem no ego masculinista típica da misoginia tão tradicional e tão pouco reconhecida. A cena final, que tinha um potencial de redenção de algumas ideias importantes tangenciadas ao longo dos episódios, falha em todos os aspectos de comunicar uma conclusão racional, emocional, ou psicológica de toda a história. Dois anos se passaram desde o primeiro episódio e muitas coisas mudaram, mas as mudanças acontecem sem explicação, como um passe de mágica mal executado e mal compreendido. Não há choro que apague a ausência que a série deixa em temas tão importantes, o que fica marcado é a estrutura de violência masculina, com seus métodos e efeitos explicitados, mas não de forma crítica.
O segundo episódio mostra uma escola particular com alunos de ensino fundamental e médio (numa equivalência ao sistema escolar brasileiro), e as cenas exploram situações de bullying, violências morais, uma noção de moralidade dúbia e a completa ausência de tentativas de compreensão ou intervenção por parte dos adultos, com a exceção da guia dos policiais dentro da instituição, que é largamente ignorada e não demonstra reações relevantes, como uma espécie de adaptação para a sobrevivência em um ambiente hostil. Dois elementos deste episódio ficaram muito presentes para mim: o quanto a sargento entende a situação e se afeta com os sequenciais episódios de descaso, sendo prontamente ignorada por seu parceiro, não sendo permitida nem a elaboração de sua compreensão; e a cena final, em que uma situação crônica de abandono é pintada com as cores do perdão por uma tentativa falha de aproximação. Novamente a figura masculina que não assume suas responsabilidades é tingida como algo positivo, já que "se dá bem no final".
Mas também há pontos bons, o primeiro episódio é muito bem elaborado e gravado, gerando um clima de tensão que infelizmente não se sustenta, pela estrutura policial burocrática, o que contribui para a narrativa. Ao final dele, apesar de diversos erros, a expectativa existe e não é baixa, sendo o restante da série quase uma ofensa ao que poderia ter sido, considerando uma perspectiva feminina, ao invés de masculina, como uma possibilidade. A trilha sonora também é interessante e bem utilizada, um dos pontos mais altos da minissérie. Mas nada disso consegue bater de frente com o desserviço da produtora e das muitas falhas éticas e práticas que envolvem os quatro episódios. A rápida renovação para uma segunda temporada, o que transformaria Adolescência em uma antologia, também revela que o tema propulsor da produção foi o dinheiro, e não a misoginia. Que, ao menos, a explicitação da ideia sirva para que mais pessoas se posicionem e falem ativamente sobre o assunto, que precisa, e muito, ser debatido de forma prática e acessível.

